No último 20 de dezembro foi realizada na sede do Comitê Chico Mendes a oficina “Inteligência Artificial e Meio Ambiente: Dados, Infraestruturas e Território”, facilitada pelos pesquisadores acreanos Gustavo Souza (Desvelar) e Sinuhe Cruz (Fiocruz). A partir de uma articulação da Coalizão Tecnopolíticas Pan-Amazônicas, a atividade propôs um “empate digital”: usar o conhecimento acumulado na luta socioambiental para enfrentar as novas ameaças tecnológicas.
A atividade compôs o quinto dia da Semana Chico Mendes 2025. Os pesquisadores buscaram explicar e debater como infraestruturas que sustentam a IA, como servidores gigantescos, redes energéticas e de transmissão, expandem-se no Brasil e demandam volumes massivos de recursos.

Durante a oficina, participantes se debruçaram sobre casos concretos de impactos nocivos a partir de informações e reportagens levantadas sobre as principais big techs. A metodologia traçou paralelos com os “empates” da época de Chico Mendes como estratégias aplicáveis hoje para bloquear o extrativismo de recursos, dados e valores pelas big techs.
O Comitê Chico Mendes foi fundado em 1988 por companheiras e companheiros após o assassinato do líder seringueiro como uma estratégia de mobilização da sociedade. O Comitê Chico Mendes é um catalisador de soluções para uma Amazônia ambientalmente equilibrada, economicamente próspera e socialmente justa, mobilizado pelo legado de Chico.





Andressa Santa Cruz, ativista ambiental e comunicadora popular, atuante no Greenpeace Brasil, foi uma das participantes e comentou:
“Agradeço o Comitê Chico Mendes por ter organizado, mais uma vez, uma agenda tão rica para a Semana Chico Mendes, porque já é 34ª edição e continuam se reinventando e trazendo temas super atuais e importantes para o ativismo, para a causa ambiental, e com certeza a inteligência artificial não poderia ficar de fora. Mas a forma que a oficina foi ministrada realmente, foi um diferencial! Parabéns para os dois professores, porque é um tema muito pouco explorado comparando com sua relevância, e naquele pouco tempo, conseguiram explicar de uma forma acessível e engraçada, engajando todo o grupo. A vontade que me deu é de levar esses professores para outros espaços, para mais gente, principalmente jovens, despertarem essa consciência e ajudarem a cobrar uma regulamentação, porque essas leis vão ter um efeito dominó, minimizando os impactos não só o meio ambiente, mas na vida das pessoas que já são afetadas por esses empreendimentos. Eu trabalho com comunicação há mais de dez anos, sou jornalista formada e sinto muita falta desse senso crítico em relação ao uso da internet e constantemente me pergunto como podemos usá-la de uma forma mais cuidadosa, sem que ela nos prejudique seja on-line ou off-line. E pra mim o mais precioso na oficina foi a dinâmica para a gente pensar em soluções, um exercício que precisamos praticar cada vez mais.”
Ao final da atividade, a Desvelar ofereceu um kit que inclui duas publicações sobre o tema. O livro Inteligência Artificial Generativa: Discriminação e Impactos Sociais, publicado pela editora LiteraRua e relatório Inteligência Artificial e Data Centers: A Expansão Corporativa em Tensão com a Justiça Socioambiental, organizado pelo Laboratório de Políticas Públicas e Internet.
Para Gustavo Souza,
“Na minha adolescência convivi com a retórica de um suposto atraso do Acre em relação ao Brasil. Lembro que houve um momento em as autoridades decidiram suspender o nosso fuso horário numa tentativa de nos alinhar ao restante do país. Preciso dizer que deu errado? Hoje essa retórica de atraso pode se ampliar e nos sujeitar a novas vulnerabilidades em prol de um modelo de desenvolvimento. Se na década de 1980, usamos os empates como ferramenta de resistência ao agronegócio, como acreanos, hoje precisamos adaptar novas estratégias para lidar com ameaças que trazem uma encruzilhada entre pautas socioambientais e digitais.”
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