As comunidades amazônidas têm muito a dizer sobre as tecnologias digitais. O ChatGPT “classifica brasileiros do Sudeste como mais inteligentes e inferioriza Norte e Nordeste, aponta estudo”. Casos como este compõem a linha do tempo de discriminação algorítmica, que mapeia análises para informar a ação coletiva diante dos danos causados por sistemas algorítmicos.
Esta e outras discussões fundamentam o minicurso “EGI – Belém: Reflexões sobre internet e territórios a partir das Amazônias”, que ocorreu nos dias 22 e 23 de maio, na sede do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), uma das organizações que compõe a Coalizão Tecnopolíticas Pan-Amazônicas (CTP). A turma de alunos, em sua maioria membros de comunidades ou organizações da região amazônica indicados pelas organizações da CTP, conta com representantes dos 9 estados da Amazônia Legal.


Minicurso EGI com a CTP
A partir de articulações iniciadas pelo Centro Popular de Comunicação e Audiovisual da Amazônia (CPA) com o Centro de Referência e Capacitação em Governança da Internet (CEREGI) do Nic.br, a Coalizão Tecnopolíticas Pan-Amazônicas (CTP) promoveu o minicurso “EGI – Belém: Reflexões sobre internet e territórios a partir das Amazônias”, na capital paraense, para aprofundar reflexões sobre o conceito de tecnologia e debater a Governança da Internet no contexto das Amazônias.
Uma da participantes, Thaís Quaresma, de Belém, relatou que “foi uma experiência enriquecedora em diversos sentidos. Acredito que, como alguém que atualmente cursa Ciência da Computação, meu sentimento foi de um despertar para questões políticas dentro da área de tecnologia para as quais eu nunca havia propriamente refletido. As oficinas ofertadas me ensinaram a importância de realizar conexões com pessoas de diversas áreas e aprender a partir delas, além de pensar criticamente problemas atuais e debater com meus colegas acerca de possíveis intervenções”.
Promover um curso voltado para representantes de comunidades e organizações amazônicas faz parte da missão da CTP, que defende maior capilaridade do debate sobre Governança da Internet na sociedade e mais representatividade dos diferentes territórios amazônicos nos espaços de reflexão sobre direitos e desafios sociotécnicos.



A programação do curso conta com rodas de conversa, palestras e oficinas com a participação de facilitadores das organizações da CTP. No primeiro dia foi realizada uma roda de conversa sobre perspectivas sobre tecnologias, com a participação de Jéssica Botelho, do Centro Popular de Comunicação e Audiovisual da Amazônia, (CPA) e Vic Argôlo, do Cedenpa.
Ainda no primeiro dia, os alunos participaram das oficinas “Porque é urgente debater tecnologias e a internet a partir da Amazônia?”, com Wil Guilherme e Bruno Ribeiro, do Centro de Pesquisa de Ativismo de Rondônia sobre Tecnologia Estado e Sociobiodiversidade (C-Partes), “Infraestruturas, Conectividade e Inclusão Digital na Amazônia”, com Hemanuel Veras, do CPA, e “Inteligência Artificial e Meio Ambiente: Dados, infraestruturas e territórios”, com Gustavo Souza, da Desvelar.
No segundo dia de curso, Lori Regattieri, da Eco-Mídia, participou da roda de conversa “Governança da Internet: atores e dinâmicas de participação”. Os alunos também puderam participar das oficinas “Estratégias de mobilização contra o racismo na Internet”, com Vic Argôlo e Gustavo Souza, e “Geração cidadã de dados nas periferias da Amazônia”, com Paulie Amaral, da Na Cuia Associação Cultural.
Mobilização local
O minicurso EGI foi co-construido e acomodado em Belém pelo Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), através da ativista Vic Argôlo. Ela destacou como “a gente conseguiu juntar, trocar e co-criar soluções para a agenda de direitos digitais partindo do território amazônico”. Através desta articulação, entre o Cedenpa e a Desvelar, foi realizada a oficina “Estratégias de mobilização contra o racismo na Internet”, durante esta atividade da Escola de Governança da Internet em Belém.
O ativista do Comitê Chico Mendes, Victor Manoel comentou que “Gostei muito da mini-EGI por, principalmente, deslocar uma discussão que vinha há algum tempo na minha cabeça: a internet também é um território. E ela pode e deve ser ocupada por a gente que vem das periferias das Amazônias. Além disso, a troca com outros estados é sempre transformadora, poder conhecer novas tecnologias ancestrais e vivências nortistas me amadurece e me enche de alegria, como também um corpo nortista, mas também jornalista.”



Nesta oficina com a aula de Vic Argôlo, doutoranda em Comunicação (PPGCOM/UFPA), e Gustavo Souza, bacharel em Direito e especialista em Inteligência Artificial, os participantes tiveram a oportunidade de aprofundar seus conhecimentos sobre comunicação e direito antirracista. As discussões sobre o direito antirracista foram feitas a partir da Constituição Federal, da Convenção Interamericana contra o Racismo e na lei 7716/1989 para que os participantes se apropriassem desses instrumentos legais.

Após a realização da atividade, Margot Feijó, artivista da Arte Perfomance Delas+, compartilhou que o curso “mudou essencialmente minha forma de ver o mundo. Voltei pro Amapá e tenho feito tantas reflexões sobre coisas importantes de verdade por aqui. Espero ajudar a construir essa rede de acesso ao conhecimento para as pessoa
Ainda Pam Menezes Duarte, ativista da Casa Catitu de Boa Vista, avaliou que “estar na Amazônia com outros amazônidas, pensando juntes sobre e pelo nosso território, sempre é uma experiência muito bonita e acolhedora, pois somos nós falando sobre nós, por nós e pensando também os nossos. Ainda, algo que me chamou muito a atenção foi a didática dos ministrantes, tanto para explicar os assuntos quanto nas escolhas de dinâmicas para exercitarmos e compartilharmos os conhecimentos construídos ao longo de cada minicurso. Por fim, deixo como sugestão a realização minicurso nos demais estados da Amazônia Legal, saindo um pouco do eixo Manaus-Belém, de forma que os amazônidas participantes tenham a oportunidade de estarem presentes nos outros territórios da região, pois somos muitas amazônias.”
Texto por Hemanuel Veras e Gustavo Souza

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