No último 18 de julho, o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc recebeu atividade sobre “Enfrentando Deepfakes” em número de Autografias, atividades que focam em discutir novas publicações e o processo de produção por seus autores. Compuseram o painel Gustavo Souza, Juliane Cintra, Arnaldo Santana e Tarcizio Silva.




A atividade foi aberta pela fala de Gustavo Souza, idealizador do projeto, organizador do livro e autor do capítulo “As Escolas e o Ensino“, sobre as motivações para articular as mais de 30 autoras/es. Para Gustavo Souza, “buscamos avançar na produção de conhecimento sobre como as ferramentas ligadas a produção de desinformação por conteúdo sintético são usadas, como são encontradas, quais impactos elas deixam e quem sofre o dano.”
Em sua fala, ele destacou como tem se tornado progressivamente mais difícil distinguir os conteúdos sintéticos, criado por ferramentas de inteligência artificial. “Já deixamos o momento onde poderíamos nos tranquilizar pelas imperfeições das imagens e vídeos gerados. Apenas literacia midiática e desconfiança sobre a I.A. não é suficiente. Hoje uma pessoa trabalhadora que cuida de dois filhos, trabalha 8 horas por dia, gasta até três horas de ônibus e é sistematicamente exposta a deepfakes, ainda assim, com todos esses desafios diários ela pode ser cobrada de forma individual por acreditar nesses conteúdos“.
Para Gustavo existe a necessidade de uma abordagem mais ampla, “o grande desafio é pensar que a integridade dos ambientes informacionais está sob ameaça e cria-se um contexto onde qualquer tomada de decisão baseada em informações é inviabilizada. As políticas públicas devem ser coletivas, sistêmicas e priorizar os grupos que enfrentam seus primeiros danos“.
Juliane Cintra, autora do capítulo “Pretuguês: o algoritmo do futuro” fala sobre os usos, interpretações e apropriações reais das tecnologias e sistemas por pessoas brasileiras. Centralizando a noção de pretuguês de Lélia Gonzalez, argumenta que devemos centralizar as visões sobre como as pessoas usam as plataformas para avançar na governança. Para Juliane Cintra, “não é a plataforma que de alguma maneira precise pensar quais são as regras e os limites de uso – ela não está comprometida de fato com a preservação dos direitos humanos. Caso estivessem, poderiam ter inviabilizado práticas como a produção em massa de deepnudes.
Essa viabilização de práticas pelas plataformas nos faz retomar Lélia Gonzalez e o conceito de pretuguês, com o qual ela retoma Lacan e pauta como a linguagem nos constitui como seres humanos e que esse processo é responsável pela construção de nossa cultura. Relembrando como a língua no país foi formada por mães pretas que cuidavam dos primeiros brasileiros, tanto negros quanto brancos, e performaram o papel de transmissão da linguagem.
Por isso, no artigo falo do pretuguês como algoritmo do futuro, porque é por meio do pretuguês, ao longo dos séculos, que a gente vai construindo que a gente compreende, de maneira muitas vezes indevida, o que é a cultura brasileira, mas também o que define as nossas identidades. Devemos então, coletivamente, compreender como a estrutura funciona, compreender que isso é rentável para esse modelo de negócio e se contrapor a esse modelo de negócio que parte da exploração predatória de corpos, territórios, dados e recursos naturais.”
Finalmente, Arnaldo Santana contou sobre a idealização de capítulo escrito em co-autoria com Luana Batista e Eurides de Santana, sua avó:
Eu venho de uma família do interior da Bahia. E minha avó sempre foi avessa a inovações de tecnologia. Até hoje ela tem o radinho dela onde ela escuta as notícias do dia pela manhã e no final da tarde ela liga a televisão e senta na frente da televisão. A gente já comprou um telefone celular e ela falou que ia esconder o telefone celular dentro do HD, para dizer que não tinha, porque ela é inteiramente contrária a qualquer tipo de avanço de tecnologia.
Aí eu parei para pensar: como será que minha avó, que é essa pessoa que não gosta nem de pensar na possibilidade de acessar algum recurso tecnológico mais atual, identifica essas variações que a gente consegue visualizar hoje?
Minha avó mora no do lado de Santo Amaro da Purificação lá na Bahia, na cidade de São Francisco do Conde. Ela sempre morou lá e ela não quer sair de lá de jeito nenhum, nem para me visitar aqui em São Paulo. E minha avó fez recentemente fez 95 anos.
Em conversa com ela, perguntei se ela conhecia o que significava deepfake e ela falou: ‘Não, não conheço’. E a ideia que a gente teve foi de entender como é que as deepfakes podem afetar diretamente as pessoas idosas, contemplando esse estudo de caso único, que é o caso de minha avó que não gosta e não acessa a tecnologia por querer.“
Conheça o resultado dessa conversa no texto “Por uma Ótica Nonagenária“.

O livro Enfrentando Deepfakes está disponível na íntegra em acesso aberto e gratuito. Visite nossa biblioteca e conheça mais publicações e relatórios.
